VIII Conferência Latino-Americana
de Software Livre
de 19 a 21 de outubro de 2011 - Foz do Iguaçu | PR | Brasil
Os participantes da Latinoware não conseguem sequer imaginar o evento sem o Maddog. Padrinho do software livre e do código aberto e responsável por disparar o primeiro Linux fora da família de processadores Intel 386, Maddog é um dos principais visionários na indústria de TI e estará voltando para a Latinoware 2011 onde, mais uma vez, será seguido por inúmeras pessoas querendo uma fotografia ao seu lado.
Provavelmente, um dos principais motivos pelos quais Jon "Maddog" Hall (presidente da Linux International e um dos principais líderes do projeto Cauã) sempre atrai muita gente para suas palestras são, ao mesmo tempo, o eterno evangelismo de suas palavras e a capacidade de abrir os olhos das pessoas para novas e excitantes oportunidades com tecnologias livres e abertas. Nesta entrevista, Maddog responde a algumas perguntas provocantes, feitas por um amigo de longa data, o coordenador da programação da Latinoware, Cesar Brod.
Cesar Brod: As pessoas que vêm todos os anos para a Latinoware já esperam a sua presença no evento e, como sempre, haverá uma audiência lotada para ouvir as suas palestras. Já se passaram mais de dez anos desde a primeira vez que você veio ao Brasil para falar sobre software livre e código aberto. O que você acredita que as pessoas realmente entendem e o que elas ainda não entenderam em relação ao software de código aberto?
Maddog: "Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo, e a todos algumas vezes, mas não há como enganar a todos o tempo todo." - Abraham Lincoln. Gostaria de dizer que a frase "as pessoas ainda não entendem" é um problema, porque acredito que muitas pessoas "entendem" alguns dos pontos do Software Livre algumas das vezes, mas a maioria das pessoas ainda não "entendem" todos os pontos todas as vezes.
Para algumas pessoas "Software Livre" é algo que eles podem baixar da Internet e usar para resolver seus problemas sem precisar pagar royalties ou por uma licença. Em muitos países este argumento tem pouco valor, pois não pagam por boa parte de seu software. Para outros, tais como desenvolvedores ou empresários, Software Livre representa software para os quais eles podem obter consertos (fixes) para bugs ou extensões rapidamente para poderem continuar trabalhando, ou ainda usar suas próprias extensões para desenvolver soluções melhores que os de sua concorrência.
Para treinadores e consultores isto significa que ao estudar o software e o código fonte daquele software eles podem se tornar tão conhecedores daquele software quanto a pessoa (ou pessoas) que o escreveu, e portanto, obter um valor 'premium' por seu serviços. Para os governos, o Software Livre representa uma maneira de manter seus melhores programadores treinados nas universidade de seus próprios países ao invés de vê-los migrar para outros lugares onde possam ter bons empregos em desenvolvimento de software. O Software Livre representa a potencial longevidade da solução para as necessidades do governo, e manter sua soberania sobre seus próprios sistemas de computação é segurança contra embargos ou violações de privacidade de governos de outros países.
Na minha cabeça, sempre tento estender o dia de hoje para o futuro distante. O que aconteceria se tivéssemos sete bilhões usando os nossos sistemas atuais? As filas nas linhas de ajuda (help line) teriam cinco dias de espera ou apenas três? Eu teria 500 patches para debater na "Terça do Patch", ou o fornecedor poderia me oferecer patches nas quintas também no futuro?
Para certas pessoas, como eu, que tiveram a falta de sorte de ver a indústria da computação evoluir de serviços para produtos e o luxo de ter o tempo para olhar para o futuro um dia, quando tivermos que atender as necessidades de outros cinco bilhões de usuários de "desktops" podemos perceber que os produtos de informática tais como os conhecemos falharão, e os software construídos em cima de bons serviços serão a chave para entregar os próximos cinco bilhões de "desktops".
CB: Para nós que acreditamos e trabalhamos com software livre, o Linux Desktop deveria crescer muito mais rápido e isto não aconteceu ainda. Porém, em termos de celulares, hoje já vemos mais deles operando em Android do que em qualquer outro sistema operacional. Devemos nos contentar com isso e deixar para lá os Desktops?
MD: Perceba que na pergunta coloquei "desktops" entre aspas... sou um grande admirador de Gene Roddenberry e das diferentes produções de Star Trek. Em Star Trek, haviam alguns tipos principais de métodos de comunicação/homem:
com um simples toque no comunicador era possível "conversar" com o computador principal;
um aparelho de "log (diário) pessoal" que era mantido na cabine de cada um;
uma "workstation (estação de trabalho)"
O "comunicador" era tipicamente para perguntas simples com respostas simples: "Qual a distância até a estação estelar mais próxima?"
O log pessoal era para planejamento detalhado. Viamos o Capitão Picard em frente a seu "log pessoal" na sua mesa. Este tinha métodos de entrada de dados limitados e potencial de saída limitado, mas ainda era melhor do que discutir com alguma voz computadorizada para que ela entendesse o que você estava tentando dizer. Observe que esta última edição não tinha sequer um andróide sofisticado como o "Data".
A "workstation" do Star Trek é um pouco mais difícil de visualizar, mas fácil de entender com minha explicação. "Engenharia" era uma workstation. "Navegação" era uma workstation. "Enfermaria" era uma workstation. "Ponte de Comando" era uma workstation. Sim, o Doctor McCoy podia consertar coisas simples como um corte ou um hematoma ajoelhado ao lado da pessoa lesionada, mas se ficasse sério, a primeira coisa que ele dizia era "me transmita para a enfermaria", onde ele dispunha das ferramentas e mecanismos necessários para fazer o que fosse preciso. A cada nove, sete conseguiam responder aos problemas de navegação, mas para fazer navegação de "verdade" ela ia para uma sala especial de "Navegação".
Scotty podia operar a nave quase de qualquer lugar, incluindo a "ponte de emergência" na Engenharia, mas não víamos ele fazendo diagnósticos extensos de nenhum outro lugar exceto a engenharia. Tampouco o Capitão Kirk normalmente operava a nave estelar de qualquer outro lugar que não fosse a "Ponte". Era ali que eles dispunham de tudo que precisavam para fazer suas tarefas normais (ou de emergência).
O ponto aqui é que "o desktop" não é exatamente um único aparelho. Acredito que os computadores se tornarão cada vez menores, consumindo cada vez menos energia com potência gráfica e de computação cada vez maior e sistemas de comunicação com a Internet cada vez melhores até que os "desktops" não sejam maiores que telefones....mas o software de interface para operá-los e resolver "problemas reais (TM)" serão mais extensos do que consigo enxergar com meus olhos de 60 anos em uma tela de 3 por 4 polegadas.
Talvez o tamanho da tela possa ser consertado por projetores de LED (já estão sendo colocados em alguns telefones), e teclados projetados resolverão a síndrome de "pequeno demais para pessoas com dedos gordos"....porém o desenho da interface humana para como vamos usar o aparelho ainda é, na prática, o que precisamos resolver antes do "desktop" virar "telefone" para "problemas de verdade". Agora, o "desktop" cederá seu lugar para o notebook/netbook menor e portátil?Provavelmente, é o que virá acontecer, mas vai levar tempo.
Acredito que outros "aparelhos futuros" ainda estão no ar. Não sou um grande fã de “tablets”, mas posso ver onde eles podem ter alguma utilidade. Pode ser mais sobre colocar um "Linux Desktop" em um "leitor de e-book" que será o caminho para o futuro. Afinal de contas, os "Nook People" não precisariam pagar um royalty pelo Linux, precisariam? Ou talvez a tela de TV possa ser o aparelho de saída para o "log pessoal" de muitas pessoas .... ainda acredito que precisaremos de ambientes multi-janela para manter o usuário médio satisfeito, e isto ainda precisa de um pouco mais do que atualmente cabe na minha mão.
Por falar nisso, acho divertido que esta pergunta apareça repetidamente dos mesmos analistas que normalmente têm dois ou três monitores na frente deles em suas mesas. Se o desktop estivesse desaparecendo, é só deixá-los usar as telas de seus telefones para tudo.
CB: Um novo modelo de negócios está sendo formado pelo que é chamado de nuvem (cloud). Agora que seus apps não residem mais em seus computadores e é possível usar tudo que a nuvem oferece de graça (Facebook, Google Docs, gMail, etc.) - desde que você veja um anúncio cada vez mais visado para seu perfil – você acha que as pessoas ainda vão se preocupar com a liberdade de software? E será que deveriam?
MD: Em primeiro lugar, existem pelo menos quatro versões da "nuvem", desde "todo o software (não) para uso" a "ferro puro em prateleiras (bare iron in racks)". Mais uma vez, acredito que algumas pessoas optarão por usar parte deste software para suas finalidades. Outras não. Gmail e Google Docs parecem ser usados por muita gente todos os dias, e estas pessoas estão satisfeitas com eles. Outras testaram estes produtos, e depois se distanciaram deles.
Quanto mais funcionalidades forem oferecidas pela "Cloud", eu prefiro responder a longo prazo. Quando "a nuvem" me oferece máquinas virtuais ou hardware puro para serviços de hospedagem, é aí que realmente gosto da "Nuvem". A questão que vejo com "Software enquanto Serviço (Software as a Service – SaaS)” ou "Aplicativos enquanto Serviços (Applications as a Service - AaaS)” tem a ver com o cliente ter condições de conseguir aquela pequena extensão ou consertar um bug dentro do prazo que precisam. Se as pessoas acharem que é mais difícil de conseguir a atenção da Microsoft ou outra empresa de "produto" para prestar um serviço, por que eles acham que será mais fácil conseguir que uma empresa de serviços conserte (ou troque) seu produto quando há bilhões de outras pessoas o usando?
Olhando para o futuro de novo, usar "a Nuvem" permite que hackers roubem os dados de cartão de crédito de todos os habitantes do planeta ao mesmo tempo, ou até lá já teríamos consertado este problema recorrente? Se "a Nuvem" quebrar, os computadores de todos ficariam lentos ao mesmo tempo em todo o mundo, ou apenas em certas regiões geográficas. Prefiro ter o controle de meu software, e depois simplesmente rodá-lo em uma plataforma (virtual ou real) com o provedor de serviços me proporcionando um commodity tangível que eu possa medir de alguma forma, como ciclos de CPU, largura de banda de memória e largura de banda de rede.
Se puder, prefiro rodar meu aplicativo em meu aparelho portátil, e se este não tiver potência de CPU ou recursos suficientes, rodá-lo em um servidor local, e se este não tiver capacidade suficiente , ampliá-lo usando a "Nuvem", porém a escolha seria minha somente quando precisasse ou quisesse. E gostaria de poder armazenar meus dados onde quiser, como quiser, quando quiser. Acho que sou um pouco obsessivo por controle, mas até aí, a maioria dos bons administradores de sistemas o são ...benignos, mas controladores. Seria bom se parte da "Nuvem" estivesse no subsolo de meu prédio, para que eu pudesse encontrar o provedor daquela parte dos serviços e confrontá-lo com meu problema.
Na realidade, eu prefiriria (e faço isso) usar a "nuvem" como extensão temporária de serviços, um meio para back-up off-site, e para serviços que não sejam críticos, as essenciais para a missão. Comecei com uma citação de Abraão Lincoln, e terminarei com uma de Sun Tzu: "Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda." Talvez eu venha a discutir estes conceitos com os participantes do Latinoware enquanto tomamos umas cervejinhas.
VIII Conferência Latinoamericana de Software Livre | Latinoware 2011