VI Conferência Latino Americana de
Software Livre
Fazendo de graça e ainda tirando lucro

Fonte: Jornal Gazeta do Povo |  Publicado em 26/10/2009 | Denise Paro

Nem todo mundo já ouviu falar de países como Kiribati ou Eri­treia. Mas o paraibano Anahauac de Paula Gil, 37 anos, tem a resposta na ponta da língua. E não é por ser expert em geografia – como consultor na área de software livre, Gil trabalha em uma empresa que hoje tem 36 parceiros distribuídos por 29 países.

Entre eles estão o arquipélago de Kiribati, país formado por 33 ilhas no Oceano Pacífico, e a jo­­vem nação africana da Eritreia.

O contato surgiu depois que técnicos de informática dos dois lugares fizeram download do software produzido pela empresa de Gil disponibilizado gratuitamente pela internet para o mun­­do todo.

Gil faz parte de um negócio que cresce a cada ano. É o empreendedorismo estimulado pelo uso do software livre. No Brasil, a prática ainda é tímida, mas pode ser observada em empresas formais e cooperativas. O princípio é simples: compartilhar para ganhar.

Foi isso que Gil e sua equipe fizeram. Criaram um software usado para gerenciar servidores de e-mail. Na Eritreia, uma mi­­croempresa no ramo de Tecno­logia da Informação (TI) baixou o paragrama para usá-lo no gerenciamento de servidores do governo local. Satisfeitos com os resultados, eles decidiram fazer uma parceria com a empresa de Gil para obter consultoria. Assim, os brasileiros passaram a lucrar com o negócio.

O enfoque do negócio, segundo Gil, foge ao modelo tradicional. “Num modelo tradicional isso seria um problema porque a empresa estava instando um software para o qual não tinha licença. Nosso modelo é o contrário. A empresa tem direito de explorar o software e como ele tinha um problema foi à fonte buscar ajuda”, diz. Na visão de Gil, o modelo, baseado na democratização do conhecimento, gera postos de trabalho porque as empresas baixam o software para configurar servidores de seus clientes.

O diretor-executivo da Linux International, Jon “Maddog” Hall, pontua que hoje a maioria dos trabalhos derivados do uso do software livre não é de criação dos softwares. Os empregos gerados, na maior parte, são para instalar os softwares, treinar pessoas para operá-los e oferecer su­­porte. O importante nesta ca­­deia, segundo Maddog, é que a renda fica no próprio país. No ca­­so de programas criados no Bra­sil, por exemplo, não é pre­­ciso enviar royalties de patente para os Estados Unidos.

Durante o evento, Maddog apresentou o projeto “Cauã”, que tem como princípio vender um computador de baixo custo sem disco rígido e ventoinhas para resfriá-lo, o que permite reduzir o consumo de energia. O computador terá um sistema operacional Linux para conectar a um servidor que realizará o pro­­cessamento. A geração de em­­­prego e renda ocorrerá a partir de um empreendedor que irá treinar clientes, usuários, vender serviços e manter a rede operacional. Ele estima que por meio do projeto, cuja versão pi­­loto será lançada em abril de 2010, será possível criar cerca de 3 mil empregos no país.

Outra iniciativa na área de empreendedorismo é da empresa norte-americana CollabNet que disponibiliza ao mercado um software de código aberto usado para auxiliar na criação de outros tipos de softwares. “As pessoas usam o software, que é apenas um pedaço da plataforma, todo o resto dela é pago. Se a pessoa quiser a plataforma inteira, ela pode usar durante 30 dias, mas se não gostar pode voltar a usar a plataforma anterior”, diz a gerente de marketing, Emily Salus.

Os usos e aplicações do soft­wa­­re livre foram discutidos na 6.ª Conferência Latino-Ame­ri­cana de Software Livre (Latinowa­re), realizada na semana passada no Parque Tecnológico de Itaipu (PTI) em Foz do Iguaçu. O evento reuniu cerca de 3 mil pessoas.

História

Modelo colaborativo surgiu há 50 anos

A iniciativa de compartilhar conhecimento na área de informática não é recente. O historiador Peter Salus diz que há 50 anos a IBM incentivava as pessoas a colaborar e distribuir informações para facilitar o manuseio de um de seus computadores. Assim, começava a surgir o modelo de dividir e agregar o conhecimento, similar à chamada inteligência coletiva, prática hoje aplicada à plataforma do software livre. Mas a idéia não durou muito tempo. “Não prosseguiu porque, dez anos depois, um advogado teve a infeliz ideia de que seria lucrativo cobrar por distribuição de informações”, diz Salus. Hoje, 50 anos depois, ressalta o historiador, o software livre tornou-se uma força justamente por ter a colaboração de milhares de pessoas em todas as partes do mundo. Seu maior símbolo é o Linux, sistema operacional aberto que concorre com o Windows, da Microsoft. A versão mais usada do Linux, a Ubunto, tem cerca de 13 milhões de usuários ativos no mundo. “Sem a cooperação das pessoas, o Linux não seria o que é hoje”, comenta Salus.